Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto, Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é (E se soubessem quem é, o que saberiam?), Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente, Para uma rua inacessível a todos os pensamentos, Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa, Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres, Com a morte a por humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens, Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade. Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer, E não tivesse mais irmandade com as coisas Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada De dentro da minha cabeça, E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu. Estou hoje dividido entre a lealdade que devo À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro. (...)
'Um juiz meu cliente desanimado da vida. Quanto mais julga e condena mais crimes lhe aparecem.
Eu só lhe disse:
- Mudem de sistema! Em vez de construírem hospitais e tribunais e ficarem à espera do homem quando ele ali chega tuberculoso ou criminoso, vão ao encontro dele no caminho da vida e dêem-lhe o pão que lhe falta e a cultura que não tem.' - Miguel Torga
Daniel Correia - Militante da poesia (1931 - 2003)
Daniel Correia, nasceu em Brinches – Serpa, a 31.12.1931. Deixou cedo os longos espaços do Alentejo, terra da desolação, no dizer de Urbano Tavares Rodrigues, terra cercada de fomes e latifúndios, de povos vigiados e partiu a caminho de uma mirífica Lisboa onde era possível o sonho e a fortuna.
Tinha 11 anos quando aportou à capital do império. Mas Lisboa era, em 1942, uma cidade triste, cinzenta, estática, muito diferente da cidade sonhada. Urbe de pequenos comerciantes, de serventuários do regime, de acabrunhados mangas-de-alpaca, de medos dependurados das esquinas.
A guerra na Europa (e a Europa era, nessa altura, um espaço de abstracções, coisa difusa que ficava longe, para lá dos Pirinéus) obrigava a restrições, a racionamentos. O menino que trazia notícias da fome da terra alentejana, viu-se de repente numa cidade pequeno-burguesa amedrontada, agradecendo, espojada, à Virgem as côdeas diárias da escassa ração, e a Pátria salva, por Salazar, dos horrores da guerra.
Uma cidade assim cercada deixa pouco espaço para o sonho, mesmo para os comedidos sonhos de menino. A fortuna, que a havia galopante, estava circunscrita aos círculos do poder, aos colaboracionistas, aos patos bravos que construíam as novas avenidas do regime e aos videirinhos que encontraram na exploração do volfrâmio motivos bastantes para aplaudirem, sem crises de consciência, os crimes do nazismo e a visão patriótica de Salazar.
É esta cidade que o menino de Brinches encontra, junto com as primeiras botas que o tio, sapateiro, lhe oferece mal chega ao cais do Terreiro do Paço, vindo no barco do Barreiro.
Da oficina de sapateiro do tio, em pleno Bairro Alto, Daniel Correia vê, passar-lhe à porta, os mais populares actores e cantores da época. Então, o Bairro Alto, mantinha nas suas estreitas ruas, as redacções dos principais jornais, o Conservatório Nacional, as casas de fado e na sua periferia os teatros S. Luiz e Trindade, o cinema Chiado Terrasse. O próprio tio chegou a fazer sapatos para as revistas do Parque Mayer.
Deslumbrado, o pequeno Daniel descobre uma noite, na telefonia, a voz de João Villaret dizendo o cântico negro de José Régio. Fica, desde aí, preso aos sortilégios da palavra e da forma como a voz do actor lhes dava vida e expressão. A atracção é tanta, o fascínio pelas palavras tão intenso, que começa a coleccionar os poemas vindos a público nos suplementos literários dos jornais, ou aprendendo-os de ouvir na caixa mágica que a telefonia era, ditos por grandes vozes: Carmen Dolores, Maria Dulce, Manuel Lenero, Villaret, o grande Villaret.
Assiste, ao vivo, a espectáculos da rádio, famosos ao tempo: Comboio das 6 1/5, Passatempo APPA, Companheiros da Alegria, Serões para Trabalhadores, Recolhe, nestes espectáculos, elementos que o levam a pensar a rádio como espectáculo, como vida, embora efémera, como comunhão directa com o público.
Aos dezoito anos casa e muda-se para Almada. Começa a dizer poesia em sessões da Incrível Almadense e na Academia. Torna-se, aos poucos, como ele gosta de afirmar, militante da poesia. Frequenta bibliotecas públicas, recolhe poemas, começa a guardar, no recanto dos afectos, os poetas que sempre o acompanharão: Carlos Conde, Sebastião da Gama, Régio, Manuel Alegre, Ary dos Santos, Aleixo. Quando, no inicio dos anos oitenta se muda para Samora Correia, junta a estes os poetas locais que então conhece – e não só conhece, começa a divulgar: Isabel Alemão, Albertina Pato, Piedade Salvador. Começa, então, um tempo de rádio, das rádios livres ou piratas como então eram conhecidas.
Daniel Correia começa, com uma equipa de entusiastas, a divulgar a poesia em programas como Despertar à Portuguesa, Romaria, Poesia na Noite, Fado e Palavras Ditas, Hino à Poesia. Revelam-se, através destes programas, alguns dos poetas populares mais importantes do concelho de Benavente.
Hoje, as rádios tornaram-se instrumentos anódinos, espaços que é preciso ocupar com programas que preencham a azáfama dos dias, sem alma, sem rosto. Comercializaram-se até à promiscuidade, politizaram-se até à mais aberrante tacanhez. Não há lugar para a poesia, para os escritores, para a palavra sensitiva, para a pausa que remete para os sentidos, para o humano que em nós habita – as rádios são desertos inócuos, povoados de acéfalos animadores de bruma, passadores acríticos de música abjecta. Já lá não cabe o sonho e as palavras que transformam e comandam a vida. Daniel Correia sabe-o, e porque o sabe, vai dizendo os seus poetas de sempre nos espaços ainda possíveis. Sempre, enquanto a memória perdurar.
Café Luso - 1951 ( Carlos Conde, Amália Rodrigues, Filipe Pinto, Francisco Radamanto, Fernando Farinha, Linhares Barbosa, Domingos Camarinha, Santos Moreira, Domingos Mesquita e esposa, entre outros...)
Nasceu em Lisboa no Bairro de Alcântara. É neto do fadista Alfredo Marceneiro, e filho do também fadista Alfredo Duarte Júnior.
Desde tenra idade foi criado por seu avô Alfredo Marceneiro, pelo que se poderá dizer que nasceu e foi criado a ouvir Fado.
Tornou-se profissional de Cinema e Televisão, primeiro como Director de Produção, depois como Director de Som e finalmente como Realizador de Publicidade.
Foi Produtor e Director de Som no Programa de Televisão para a RTP1, "Marceneiro - Três Gerações de Fado", onde também canta com o pai e o avô.
Nunca se profissionalizou como cantador de fados, mas canta e gravou a solo e em dueto com seu avô e seu pai para EMI-Valentim de Carvalho e para Discos Estúdio.
É autor dos livros biográficos de seu avô "Recordar Alfredo Marceneiro", e Alfredo Marceneiro, Os fados que ele cantou.
Neste momento abraça um projecto ambicioso e inédito da sua autoria e iniciativa de colocar a cidade de Lisboa no guiness - http://lisboanoguiness.blogs.sapo.pt/
O FADO É UM ESTADO DE ALMA... para Vitor Duarte
VITOR DUARTE CANTA BAIRROS DE LISBOA - Música de Alfredo Marceneiro/Letra de Carlos Conde
De entre os milhentos amantes que Lisboa tem, os mais enamorados e fieis, os que a adoram com paixão quase fisica e quase sensual, são aqueles “Fala-sós” que a gente vislumbra, em jeito de prece, debruçados em mirantes e miradouros, a comtemplá-la em extase, na hora bruxa do arrebol vespertino.
Ao longe, o sol declina, lentamente, deixando após si um rastro de oiro e vermelho, de anil e púrpura, que vai encher de reverberos de cor e de luz as mil janelas dos sete presépios que são as sete colinas… Desfolham-se as sardinheiras nas trapeiras e as rosas-de-toucar fecham-se, púdicamente, por varandas e sacadas.
Esta é a hora dos “Fala-Sós”… Lá estão eles no Monte e em Santa Luzia, em S. Pedro de Alcântara e no Alto de Santa Catarina… Olhos fixos, magníficos e famintos, lábios que se sentem mexer numa irreprímivel confissão de amor, ensimesmados e indiferentes a tudo que não seja o deslumbramento de alma que a presença, viva e intimamente sentida, da sua amada Lisboa, lhes faz viver, num frémito de emoção e de puro prazer.
Todos os “Fala-sós” são poetas – mesmo os que não sabem fazer versos, mesmo aqueles cujos poemas vivem e vibram de dentro para dentro. Estes usam as vozes do silêncio, recolhidas e crentes, mas não menos apaixonadas do que as dos outros, - dos que cantam, dos que exprimem de dentro para fora.Uma das mais puras vozes cantantes dos “Fala-sós” da cidade é a de Carlos Conde, - poeta pela graça de Deus, trovador por amor da Lisboa que vive, em sortilégio da graça, nas suas rimas ricas de sabor e verdade.
O poeta percorre as ruas da cidade ribeirinha, sobe escadinhas, entra nos pátios, calcurreia as calçadas, enternece-se com os arcos e alpendres, deslumbra-se nos mirantes e miradouros…
Ali vai um cego a tocar guitarra; uma costureirinha romântica assoma à janela a trautear uma trova; uma varina atira ao ar a nota cantada dum pregão vibrante; um marujo passa, bamboleante e pimpão; uma rapariga, de lenço e avental, leva nos olhos a marca de um amor de perdição; um ardina saltitante e irreverente grita “à última hora”!...
Todo este mundo pitoresco e estranho, que é luz e noite, que é riso e lágrimas, que é manjerico e cardo, pertence ao poeta. Todo ele pulsa, vibra e vive nos versos de Carlos Conde.
Sobe o cantor a Santa Luzia, para nos dizer:
“Alfama faz-me lembrar
Na pureza muito sua,
Uma velhinha a fiar
Sentada à porta da rua!!...
E logo define o bairro como:
“Cancão em que o povo crê,
Cantiga que o povo reza…
- És um sonho de princesa
Alfama da velha Sé!...”
Do lactário sai uma rapariga que leva, aconchegado no xaile, quase escondido, o seu menino, aquele menino que o amor lhe pôs nos braços… E, Carlos Conde, comenta:
“Meu Deus! Meu Deus: - Vê lá bem
Que, por caminhos sem luz,
Anda um menino Jesus
Ao colo de cada mãe!...”
Tomando como sua a cruz de outra, a que passou chorosa, desiludida e descrente, o poeta afirma:
“Meus olhos que por alguém
Deram lágrimas sem fim,
Não choram por mais ninguém,
Basta que chorem por mim!...”
Passa à Mouraria para nos dizer:
“Venham ver a Mouraria
Pelas frestas do passado!...
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Aqui, na Rua dos Canos,
Dançam faias e rameiras,
Entre dois velhos pianos
Dum café de camareiras!...”
Foi à Graça e contou-nos a história do namorico da Maria, a tal costureirinha romântica e cantadeira:
“Na Graça, quando ela passa,
Toda a gente lhe quer bem:
- Não há graça com mais graça
Do que a graça que ela tem!...
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Causa gosto ver aquele
Varandim com muitas flores,
À esquina de Sapadores
Muito perto do quartel.
Cá em baixo, um furriel
Com quem a Maria engraça
Diz-lhe um dito, uma chalaça,
Ela atira-lhe uma flor…”
É assim mesmo, não é? …
O poeta chega, agora, ao Castelo e diz-nos:
“Estamos no velho Castelo
Desta Lisboa garrida,
Que é o caixilho mais belo
De uma aguarela com vida!...”
Desce à Baixa e, lisboeta retinto, exclama:
“Ali vai a Tradição
Almoçar ao “Garrafinhas”,
Depois de estar nas “ginginhas”
Do Rossio e Santo Antão!...”
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Vai-se ao “Cabeça de Touro”,
Ao “Friagem” e ao “Claudino”
E nunca se perde o tino…
Esta Baixa é um tesouro!...”
Desde o exterior castiço e pitoresco ao interior, - quantas vezes de revolta e drama - , todos os tipos populares, a própria voz do povo dos bairros típicos de Lisboa que cheira a alfazema e a cravo-de-papel, estão despidos e ficam bem assim na verdade da nudez dos versos de Carlos Conde. São como são. E Lisboa é como é.
Ai, Lisboa!... Que Carlos Conde, um dos teus apaixonados “Fala-sós”, te continue a sentir para dentro e a cantar para fora!...
Às vezes acordo com este grito: - A morte! A morte! - e debalde arredo o estúpido aguilhão. Choro sobre mim mesmo como sobre um sepulcro vazio.
Oh! Como a vida pesa, como este único minuto com a morte pela eternidade pesa!
Como a vida esplêndida é aborrecida e inútil! Não se passa nada, não se passa nada. Todos os dias dizemos as mesmas palavras, cumprimentamos com o mesmo sorriso e fazemos as mesmas mesuras.
Petrificam-se os hábitos lentamente acumulados.
O tempo mói: mói a ambição e o fel e torna as figuras grotescas."
Canoa do Tejo
Canoa de vela erguida
Que vens do Cais da Ribeira,
Gaivota que anda perdida
Sem encontrar companheira,
O Vento sopra nas Fragas,
O Sol parece um morango
E o Tejo baila com as vagas
A ensaiar um fandango
Estribilho:
Canoa, conheces bem,
Quando há Norte pela proa,
Quantas docas tem Lisboa
E as muralhas que ela tem!
Canoa, por onde vais,
Se algum barco te abalroa,
Nunca mais voltas ao Cais!
Nunca, nunca, nunca mais!!
Canoa de vela panda
Que vens da Boca da Barra
E trazes na aragem branda
Gemidos duma guitarra,
Teu arrais prendeu a vela;
E se adormeceu, deixá-lo!
Agora muita cautelaa
Não vá o Mar acordá-lo!
“Deve ser horrível viver com a impressão de que se perdeu o comboio... De que se perderá sempre o comboio do dia seguinte... E de que só se chega a tempo ao comboio de ontem que já descarrilou.