Segunda-feira, 14 de Maio de 2012
O portão do fado ou O portão do Adicense
 
 
Na rua de São Pedro mora o fado
Por trás do zinco dum portão velhinho,
E á noite Alfama entoa o seu recado
Nas pedras já poidas do caminho!
 
Lá dentro, cantam fado mais castiço
Trovadores duma casta mais bairrista,
Por isso e apenas só por isso
O fado ali é muito mais fadista!
 
Ao fundo, há um balcão improvisado
Que aguça o paladar de quem petisca,
Não há ninguém que antes de ouvir fado
Se negue a provar uma patanisca!
 
No bairro onde o fado é viva chama
Não passa por lá ninguém que não pense,
Depois de visitar a velha Alfama
Entrar pelo portão do Adicense!
 
 
 
Letra: Paulo Conde
Interprete: Daniel Gouveia
Música: Fado Alberto
IGAC e SPA


publicado por pauloconde às 21:01
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Sexta-feira, 13 de Abril de 2012
O povo tem esperança e fé

 

Quero ter a liberdade
De viver em segurança,
Não se vence a tempestade
Com miragens de bonança!

Se falar é um bem comum
Que não pode ser calado,
O respeito é também um
Bem a não ser ignorado!

Não bastou canções, milicias
Nem cravos nas multidões,
Foi-se o bastão dos polícias
Veio a luva dos ladrões!

Tenho esperança e até fé,
Que o povo conheça um dia,
Mesmo a sério como é
Viver em democracia!

 

 

Autor: Paulo Conde

 

IGAC e SPA



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Sábado, 24 de Março de 2012
Tributo a Carlos Ramos


Quase sempre o fado evoca
Aquilo que mais gostamos,
E é tão bom entrar na Toca
Só p'ra ouvir o Carlos Ramos!

A sua voz é expressão
Que enternece a todos nós,
Dá-nos voz ao coração
Pôe-nos coração na voz!

Carlos Ramos é na verdade
Riso, lágrimas, encanto,
É escutar uma saudade
Que por fim nos toca tanto!

Autor: Paulo Conde

IGAC E SPA



publicado por pauloconde às 12:41
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Domingo, 18 de Março de 2012
Quero tudo o que é teu


P'ra voltar a ser feliz
Traz de volta o teu sorriso,
Também quero o teu olhar
Para que os possa juntar
E formar um paraiso!

Traz também a tua pele
O teu calor, o teu desejo,
E p´ra não elouquecer
Não te esqueças de trazer
A doçura do teu beijo!

As caricias mais ousadas
Podes trazê-las, meu bem,
Não quero que falte nada
Nem sequer a porta fechada
P'ra não entrar mais ninguém!

Paulo Conde

IGAC E SPA

 




publicado por pauloconde às 00:27
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Terça-feira, 13 de Março de 2012
Na vida é tudo aparente

 

Na vida é tudo aparente

Na morte tudo acabou,

Quem morre nem sequer sente

As saudades que deixou.

 

Carlos Conde

 


 

Vivemos com a vaidade

De pensar que somos gente,

Nada somos de verdade

Na vida é tudo aparente!

 

Outra vida é promessa

Em que o além nos deixou,

Na vida tudo começa

Na morte tudo acabou!

 

A saudade que nos fica

De quem vai à nossa frente,

É algo que mortifica,

Quem morre nem sequer sente!

 

Se tudo tem que findar

Numa vida que acabou,

Quem morre deve levar

As saudades que deixou!


 

Paulo Conde

 

IGAC E SPA

 

 



publicado por pauloconde às 22:36
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Sexta-feira, 9 de Março de 2012
Fado Goya

 

O fado não quer vedetas
Nem asnos empoleirados,
Nas criações mais dilectas
De fadistas consagrados!

O fado não quer saber
De aprumadas aldrabices,
Nem tão pouco conviver
Com um rol de vigarices!

Marceneiro é muito mais
Que versículos e menores,
Mas não tolera, jamais
Que lhe troquem os autores!

Um dia a história do fado
Vai repor e com justiça,
O Goya que foi roubado
Por gentalha metediça!

Paulo Conde

IGAC E SPA

 

 

 

»Polémica no Fado
Prémio Goya 2008 atribuido a Carlos do Carmo foi uma farsa. A autoria da música é de Alfredo Duarte Marceneiro. Siga a polémica neste link: http://lisboanoguiness.blogs.sapo.pt/tag/fado+vers%C3%ADculo+-+a+pol%C3%A9mica+continua

 

 



publicado por pauloconde às 00:12
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Sexta-feira, 6 de Janeiro de 2012
O cais da solidão

 
Andei à tua procura
Junto ao cais da solidão,
E apenas vi amargura
Nas vagas da ilusão!
 
E o meu coração triste
É toda a minha vontade,
Da paixão que ainda existe
Na tormenta da saudade!
 
Quando uma crista se agita
Nas águas em torvelinho,
Todo o meu pranto te grita
Desesperando carinho!
 
Sempre que o mar se revolta
Revolta-se o meu tormento,
E o teu amor que não volta
Açoita o meu sofrimento!
 
Todas as noites te espero
Junto ao cais da solidão,
E as ondas p’ra desespero
Batem nas fragas em vão!
 
 
 
 
Letra de Paulo Conde
Música de Raul Ferrão ( Fado Carriche )
Registado na Sociedade Portuguesa de Autores


publicado por pauloconde às 21:23
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Domingo, 2 de Outubro de 2011
A bruxa de Palhavã

 

Mostra ser muito bondosa
E age com grande afã,
É uma espécie de raposa
A bruxa de Palhavã!

De comidas e bebidas
Faz a sua profissão,
E à noite, às escondidas
Vai rezar à maldição!

E põe tudo em sobressalto
Com magias de satã,
Vive ali no Porto Alto
Dorme ali na Palhavã!

Fez magia por paixão
Desdenhou, quis roubar,
Por tão louca ambição
Ao desprezo foi parar!

Não me quebram por enguiços
Nem visões do amanhã,
Mas não esqueço os feitiços
Da bruxa de Palhavã!

 

 

Paulo Conde

IGA E SPA

 

------------------------------------------

 

'Há mulheres neste mundo
Que não merecem de um homem,
Nem o desprezo profundo
Quanto mais o pão que comem' - Carlos Conde



publicado por pauloconde às 03:36
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Quinta-feira, 21 de Julho de 2011
José Régio - Cântico Negro

 

 

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
 (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
 
 
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
 
 
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
 
 
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
 
 
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
 
 
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
 
 
Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…
 
 
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
 
           
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
 
   
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!
 

 



publicado por pauloconde às 23:10
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Domingo, 29 de Maio de 2011
O casino da Mariquinhas
O CASINO DA MARIQUINHAS


publicado por pauloconde às 20:40
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Quinta-feira, 19 de Maio de 2011
Um homem que não conheço

 

 

Nasci à margem da vida
Nas veredas do pecado
Onde o tempo é mais cinzento,
Sou filho de mãe perdida
Num destino mal fadado
Cresci ao sabor do vento!
 
Aprendi com a tempestade
Tive a noite como escola
Vivi sem eira nem beira,
Nunca vi a mocidade
Vendi-me de esmola em esmola
Em farrapos de algibeira!
 
Por caminhos, desvairado
Sem alma, sem coração
Comunguei com a tristeza,
Nunca amei nem fui amado
E encontrei na solidão
A minha maior riqueza!
 
Foi o tempo quem trilhou
O destino do meu berço
Por um caminho sem fé,
É por isso que hoje sou
Um homem que não conheço
Nunca vi, nem sei quem é!
 
 
Autor: Paulo Conde
IGAC E SPA


publicado por pauloconde às 14:37
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Quinta-feira, 3 de Março de 2011
Tabacaria

 

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.


Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.


Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro. (...)

 

Álvaro de Campos



publicado por pauloconde às 00:17
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Terça-feira, 15 de Fevereiro de 2011
Miguel Torga

 

'Um juiz meu cliente desanimado da vida. Quanto mais julga e condena mais crimes lhe aparecem.

Eu só lhe disse:

- Mudem de sistema! Em vez de construírem hospitais e tribunais e ficarem à espera do homem quando ele ali chega tuberculoso ou criminoso, vão ao encontro dele no caminho da vida e dêem-lhe o pão que lhe falta e a cultura que não tem.' - Miguel Torga

 

 



publicado por pauloconde às 22:54
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Segunda-feira, 14 de Fevereiro de 2011
Loucura

É loucura querer-te bem

Sou irmão da desventura

Tinha razão, minha mãe,

É loucura adorar-te

Estar sedento de ternura

Sem mesmo poder beijar-te!

 

Chorai, chorai,

Guitarras da minha terra

Que o vosso pranto encerra

As mágoas do passado

E se é loucura

Amar-te desta maneira

Quer eu queira, quer não queira

Não posso amar-te calado!

 

Hei-de ser a sombra tua

Hei-de subir e descer

Os degraus da tua rua,

Minha querida, serei louco

A vida deu-me tão pouco

Mas eu dou-te toda a vida!

 

Artur Ribeiro



publicado por pauloconde às 00:44
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Domingo, 30 de Janeiro de 2011
Lisboa, sei quem és!
 
 
Batem os sinos na Sé
E o povo cabe na fé
Dentro do teu coração,
Tu palpitas, como dantes
De chinelas saltitantes
À procura dum pregão!
 
Lisboa, minha cidade
Foi de ti, toda a saudade
Que levou um marinheiro,
Só por eu te ouvir cantar
Uma quadra popular
Ao teu Santo Padroeiro!
 
És varina, és Lisboa
Na canção que o povo entoa
Mais alegre, mais bairrista,
És um quadro de ternura
Onde o Tejo te emoldura
Para ver se te conquista!
 
Conheço-te, sei quem és,
És a musa das marés
Onde sempre me perdi,
É tão forte a devoção
Que eu não sei porque razão
Sinto saudades de ti!
 
 
Letra de Paulo Conde


publicado por pauloconde às 21:55
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Domingo, 9 de Janeiro de 2011
Alfama fadista

Eu entrei em Alfama, para ouvir
Ali num esconso beco empedrado
O carpir duma guitarra a trinar,
Um convite, uma porta a entreabrir
Lá dentro a tradição do Embuçado
Na taverna dum bairro á beira-mar!
 
Arqueadas, três vigas de Madeira,
Um leque de velas num castiçal
E o Santo Padroeiro de Lisboa,
Aguarela de fado, altaneira
No esboço que matiza sem igual
A história da canção que o povo entoa!
 
Vozes amigas e rostos fagueiros
Vão crepitando saudades, na chama
Que a memória reluz no Embuçado,
E à mercê de traços sobranceiros
Sinto-me preso nesta velha Alfama
E perdido na fama do seu fado!
Paulo Conde


publicado por pauloconde às 00:31
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Sexta-feira, 31 de Dezembro de 2010
Daniel Correia - Militante da poesia (1931 - 2003)

Daniel Correia, nasceu em Brinches – Serpa, a 31.12.1931. Deixou cedo os longos espaços do Alentejo, terra da desolação, no dizer de Urbano Tavares Rodrigues, terra cercada de fomes e latifúndios, de povos vigiados e partiu a caminho de uma mirífica Lisboa onde era possível o sonho e a fortuna.

Tinha 11 anos quando aportou à capital do império. Mas Lisboa era, em 1942, uma cidade triste, cinzenta, estática, muito diferente da cidade sonhada. Urbe de pequenos comerciantes, de serventuários do regime, de acabrunhados mangas-de-alpaca, de medos dependurados das esquinas.

A guerra na Europa (e a Europa era, nessa altura, um espaço de abstracções, coisa difusa que ficava longe, para lá dos Pirinéus) obrigava a restrições, a racionamentos. O menino que trazia notícias da fome da terra alentejana, viu-se de repente numa cidade pequeno-burguesa amedrontada, agradecendo, espojada, à Virgem as côdeas diárias da escassa ração, e a Pátria salva, por Salazar, dos horrores da guerra.

Uma cidade assim cercada deixa pouco espaço para o sonho, mesmo para os comedidos sonhos de menino. A fortuna, que a havia galopante, estava circunscrita aos círculos do poder, aos colaboracionistas, aos patos bravos que construíam as novas avenidas do regime e aos videirinhos que encontraram na exploração do volfrâmio motivos bastantes para aplaudirem, sem crises de consciência, os crimes do nazismo e a visão patriótica de Salazar.

É esta cidade que o menino de Brinches encontra, junto com as primeiras botas que o tio, sapateiro, lhe oferece mal chega ao cais do Terreiro do Paço, vindo no barco do Barreiro.

Da oficina de sapateiro do tio, em pleno Bairro Alto, Daniel Correia vê, passar-lhe à porta, os mais populares actores e cantores da época. Então, o Bairro Alto, mantinha nas suas estreitas ruas, as redacções dos principais jornais, o Conservatório Nacional, as casas de fado e na sua periferia os teatros S. Luiz e Trindade, o cinema Chiado Terrasse. O próprio tio chegou a fazer sapatos para as revistas do Parque Mayer.

Deslumbrado, o pequeno Daniel descobre uma noite, na telefonia, a voz de João Villaret dizendo o cântico negro de José Régio. Fica, desde aí, preso aos sortilégios da palavra e da forma como a voz do actor lhes dava vida e expressão. A atracção é tanta, o fascínio pelas palavras tão intenso, que começa a coleccionar os poemas vindos a público nos suplementos literários dos jornais, ou aprendendo-os de ouvir na caixa mágica que a telefonia era, ditos por grandes vozes: Carmen Dolores, Maria Dulce, Manuel Lenero, Villaret, o grande Villaret.

Assiste, ao vivo, a espectáculos da rádio, famosos ao tempo: Comboio das 6 1/5, Passatempo APPA, Companheiros da Alegria, Serões para Trabalhadores, Recolhe, nestes espectáculos, elementos que o levam a pensar a rádio como espectáculo, como vida, embora efémera, como comunhão directa com o público.

Aos dezoito anos casa e muda-se para Almada. Começa a dizer poesia em sessões da Incrível Almadense e na Academia. Torna-se, aos poucos, como ele gosta de afirmar, militante da poesia. Frequenta bibliotecas públicas, recolhe poemas, começa a guardar, no recanto dos afectos, os poetas que sempre o acompanharão: Carlos Conde, Sebastião da Gama, Régio, Manuel Alegre, Ary dos Santos, Aleixo. Quando, no inicio dos anos oitenta se muda para Samora Correia, junta a estes os poetas locais que então conhece – e não só conhece, começa a divulgar: Isabel Alemão, Albertina Pato, Piedade Salvador. Começa, então, um tempo de rádio, das rádios livres ou piratas como então eram conhecidas.

Daniel Correia começa, com uma equipa de entusiastas, a divulgar a poesia em programas como Despertar à Portuguesa, Romaria, Poesia na Noite, Fado e Palavras Ditas, Hino à Poesia. Revelam-se, através destes programas, alguns dos poetas populares mais importantes do concelho de Benavente.

Hoje, as rádios tornaram-se instrumentos anódinos, espaços que é preciso ocupar com programas que preencham a azáfama dos dias, sem alma, sem rosto. Comercializaram-se até à promiscuidade, politizaram-se até à mais aberrante tacanhez. Não há lugar para a poesia, para os escritores, para a palavra sensitiva, para a pausa que remete para os sentidos, para o humano que em nós habita – as rádios são desertos inócuos, povoados de acéfalos animadores de bruma, passadores acríticos de música abjecta. Já lá não cabe o sonho e as palavras que transformam e comandam a vida. Daniel Correia sabe-o, e porque o sabe, vai dizendo os seus poetas de sempre nos espaços ainda possíveis. Sempre, enquanto a memória perdurar.

 

Domingos Lobo – Escritor, romancista e poeta 



publicado por pauloconde às 00:30
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Quarta-feira, 22 de Dezembro de 2010
É Natal

 

 
É Natal! Eternidade!
Tanta criança esquecida,
Por haver tanta maldade
No calendário da vida!
 
 
Não há golpe mais profundo
Que a fé triste, dolorida,
De ver por aí no mundo
Tanta criança esquecida!
 
Mas o homem nada sente,
Despreza a eternidade,
E tudo isto, somente
Por haver tanta maldade!
 
Neste orbe só resiste
Quem á torpe dá guarida,
E não há nada mais triste
No calendário da vida!
 
Mas venha de lá a esp’rança
Qu’inda pode haver verdade,
Já nasceu outra criança
É Natal! Eternidade!
 
 
Paulo Conde


publicado por pauloconde às 00:42
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Terça-feira, 14 de Dezembro de 2010
Tu, criança!
És o menino que eu já fui,
És o pássaro que voava livre no céu,
És o grilo que eu gostava de ouvir cantar,
És a flor que embelezava os meus olhos e eu colhia para cheirar.
 
És o sol, o mar e o vento da minha infância,
És a verdade, a beleza, a vida, a alegria e o amor,
És isso tudo que eu fui ( e ainda sou ),
Por isso tu és criança e eu sou louco.
 
Mas é por isso que as pessoas crescidas, neste dia, te fazem festas,
Elas recordam em ti o que perderam,
Voltam a ser crianças, ao menos uma vez no ano.
 
E á tua volta, por ti, em teu nome, neste dia,
Elas procuram reencontrar o amor e a vida,
Se não fosses tu, este dia não era tão bonito para as pessoas crescidas.
 
 
Júlio Roberto


publicado por pauloconde às 00:30
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Quinta-feira, 2 de Dezembro de 2010
Canibais do Tempo

 
Viver aqui
é angustioso, dilacerante
vegetativo e penoso
 
Andamos por aqui
a devorar tempo e a mastigar plástico
em rituais mórbidos
de bebedeiras heroinamente temperadas
 
Almas dilaceradas e inócuas
perversamente encaixadas
nos podres corpos
injectados de febres frias de amor
 
Fecundamos máquinas de sexo virtual
com um prazer sórdido
de êxtase mal segregado
abortamos solidão
educamos o ódio na escola do vicio
 
Decapitamo-nos
com navalhas frias de tédio
sangramos raivas e medos
recalcados e amordaçados
que não dizemos
que não falamos
 
Somos um povo
silenciosamente revoltado!
 
 
Paulo Conde


publicado por pauloconde às 22:48
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Sexta-feira, 19 de Novembro de 2010
LEMBRAR CARLOS CONDE

22-11-1901  /  22-11-2010

Fadistas, vinde a meu lado

Quando chegar o meu fim.

E à noite, à hora do fado

Rezai um fado por mim!

 

---

 

OBRIGADO CARLOS CONDE

 

www.carlosconde.blogs.sapo.pt



publicado por pauloconde às 19:02
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Quarta-feira, 3 de Novembro de 2010
Ode à solidão
É solidão o que faço
Perdido em cada passo,
Passo entre a multidão,
Não é medo, é cansaço
De sentir que quanto faço
Se esconde na solidão!
 
Solitário! Caminhando…
Nuas almas vou cruzando
Olhos frios, gente crua,
Fico. Não vou mais além
Já não conheço ninguém
Com quem me cruzo na rua!
 
Estende mãe, o teu braço
Nesse teu peito me enlaço,
É teu, o meu coração,
Quero de volta o ventre baço
E no gume dum estilhaço
Mãe! Mata-me a solidão!
 
 
Paulo Conde


publicado por pauloconde às 23:43
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Segunda-feira, 27 de Setembro de 2010
O Casino da Mariquinhas
Resta apenas a lembrança
Das vistosas tabuinhas,
Hoje acolhe a vizinhança
Num Casino, a Mariquinhas!
 
A Mariquinhas zangada
Com gente sem coração
Tem agora a pretensão
De provar que é muito honrada,
Já não resta quase nada
Da sua pesada herança,
Foi assim, cheia de esperança
Que rasgou as bambinelas,
E das tábuas das janelas
Resta apenas a lembrança!
 
Até o Chico, apostado
Em mudar de profissão
Anda a montar um salão
P’ra lá se cantar o fado,
Já morreu todo o passado
Da formosa Mariquinhas,
No bairro não há vizinhas
Fugiram p’ra a Liberdade,
Já nem lá mora a saudade
Das vistosas tabuinhas!
 
P’ra limpar a sua história
Esta infinita mulher
Vai morar junto ao Vitória
Ali no Parque Mayer,
Mas agora o que ela quer
É que a malta da finança
Vá lá gastar a herança
No vicio do seu Salão,
As invejas já lá vão
Hoje acolhe a vizinhança!
 
É de um luxo que só vendo
Peças de ouro, sedas puras,
Até houve assinaturas
P’ra fazer um referendo,
Era apenas um diferendo
Politiquices mesquinhas,
É por isso que as vizinhas
A trazem de braço dado,
Pois pensa cantar o fado
Num Casino, a Mariquinhas!
 
 
 
 
 
Letra de Paulo Conde para quem quiser cantar!


publicado por pauloconde às 20:44
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Quinta-feira, 12 de Agosto de 2010
Lembrar Miguel Torga

 

Coimbra, 10 de Dezembro de 1993
Requiem por mim
Aproxima-se o fim.
E tenho pena de acabar assim,
Em vez de natureza consumada,
Ruina humana.
Inválido do corpo
E tolhido da alma.
Morto em todos os orgãos e sentidos.
Longo foi o caminho e desmedidos
Os sonhos que nele tive.
Mas ninguém vive
Contra as leis do destino.
E o destino não quis
Que eu me cumprisse como porfiei,
E caisse de pé, num desafio.
Rio feliz a ir de encontro ao mar
Desaguar,
E, em largo oceano, eternizar
O seu esplendor torrencial de rio.


publicado por pauloconde às 15:51
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Sexta-feira, 16 de Julho de 2010
Esperança perdida
Já não posso ser contente
Trago a esperança perdida,
Ando perdido entre a gente
Não morro, nem tenho vida!
Camões
Chamaram-me um dia Mundo
P’ra que eu unisse em paz
Tanto fervoroso crente,
Resta o suspiro profundo
Do que outrora fui capaz
Já não posso ser contente!

Não me acolhe o coração
Nem sequer me afaga a esp’rança
Da gente que dou guarida,
Sou Mundo na solidão
Neste tempo sem bonança
Trago a esp’rança perdida!

Vou girando hora a hora
Neste turbilhão de vozes
Feitas dum amor ausente,
Eu sou Mundo, mas agora
Qu’ outras almas são ferozes
Ando perdido entre a gente!

E perdido, vou girando
Não tenho um rumo traçado,
Sou Mundo de fé perdida,
Dia a dia vou penando
Neste orbe, mutilado
Não morro, nem tenho vida!

Paulo Conde


publicado por pauloconde às 14:38
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Terça-feira, 15 de Junho de 2010
Livro de poesia


 

Disponível em: http://pauloconde.bubok.pt/



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Terça-feira, 25 de Maio de 2010
Retratos de Fado

Café Luso - 1951 ( Carlos Conde, Amália Rodrigues, Filipe Pinto, Francisco Radamanto, Fernando Farinha, Linhares Barbosa, Domingos Camarinha, Santos Moreira, Domingos Mesquita e esposa, entre outros...)



publicado por pauloconde às 15:14
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Domingo, 2 de Maio de 2010
Nota solta...

 

'Só sabemos quem nos ama

E quem nos quer sem favor,

Quando caímos na lama,

No sofrimento e na dor!'

 

Do autor



publicado por pauloconde às 20:42
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Quarta-feira, 24 de Março de 2010
Arma certeira


Tenho p’ra me defender

Uma arma bem singela

Mas dum enorme valor,

Pois venha lá quem vier

Quando manejo com ela

Fico sempre vencedor!

 

Venço a má língua, arrogância

A calúnia mais brutal

E os fins da mais torpe acção,

Até venço a relutância

Daqueles que dizem mal

E no fim pedem perdão!

 

Nada temo nesta vida

Nem as almas malfazejas

Nem os ditos lés a lés,

Tudo levo de vencida

Até as próprias invejas

Caiem de rogo a meus pés!

 

Nada pois me causa medo

Nem o ódio dos irados

Aumenta as minhas fadigas,

Esmago o devasso enredo

Dos conluios fomentados

Ante as mais baixas intrigas!

 

Arma de golpes certeiros

Perante o reles motejo

De quem ri do indefeso,

Vence exércitos inteiros

Essa arma que eu manejo

E que se chama desprezo!

 

Carlos Conde



publicado por pauloconde às 22:57
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Segunda-feira, 15 de Fevereiro de 2010
O cálice da vida

 

Talvez um dia se rasgue o céu,
E por entre o seu azul celeste,
Duas asas e um branco véu
Voando sobre este mundo agreste!
 
Que nesse dia, tão nobre voar
Faça sorrir cada criança,
Abra o mundo de par em par
E nos ilumine de paz e esperança!
 
Talvez então, o sonho que abraço
Seja o abraço fraterno da vida,
E que ampare então no seu regaço
Uma só alma de branco vestida!
 
Pólvora, lágrimas e fome
Somente por tresloucada ambição
Desta humanidade perdida,
 
Que um cálice do meu sonho tome
P’ra sentir bem dentro do coração
Toda a esperança e paz da vida!
 
Paulo Conde


publicado por pauloconde às 20:49
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Quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010
Vitor Duarte Marceneiro


Nasceu em Lisboa no Bairro de Alcântara. É neto do fadista Alfredo Marceneiro, e filho do também fadista Alfredo Duarte Júnior.

Desde tenra idade foi criado por seu avô Alfredo Marceneiro, pelo que se poderá dizer que nasceu e foi criado a ouvir Fado.

Tornou-se profissional de Cinema e Televisão, primeiro como Director de Produção, depois como Director de Som e finalmente como Realizador de Publicidade.

Foi Produtor e Director de Som no Programa de Televisão para a RTP1, "Marceneiro - Três Gerações de Fado", onde também canta com o pai e o avô.

Nunca se profissionalizou como cantador de fados, mas canta e gravou a solo e em dueto com seu avô e seu pai para EMI-Valentim de Carvalho e para Discos Estúdio.

É autor dos livros biográficos de seu avô "Recordar Alfredo Marceneiro", e Alfredo Marceneiro, Os fados que ele cantou.

Neste momento abraça um projecto ambicioso e inédito da sua autoria e iniciativa de colocar a cidade de Lisboa no guiness - http://lisboanoguiness.blogs.sapo.pt/

 

O FADO É UM ESTADO DE ALMA... para Vitor Duarte

 

VITOR DUARTE CANTA BAIRROS DE LISBOA - Música de Alfredo Marceneiro/Letra de Carlos Conde

 



publicado por pauloconde às 13:54
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Sábado, 2 de Janeiro de 2010
"Um fala só" de Lisboa
Um “Fala-só” de Lisboa: Carlos Conde
 
Uma palestra da série “Lisboa, tão linda és…”
 
por Francisco Radamanto
 
De entre os milhentos amantes que Lisboa tem, os mais enamorados e fieis, os que a adoram com paixão quase fisica e quase sensual, são aqueles “Fala-sós” que a gente vislumbra, em jeito de prece, debruçados em mirantes e miradouros, a comtemplá-la em extase, na hora bruxa do arrebol vespertino.
Ao longe, o sol declina, lentamente, deixando após si um rastro de oiro e vermelho, de anil e púrpura, que vai encher de reverberos de cor e de luz as mil janelas dos sete presépios que são as sete colinas… Desfolham-se as sardinheiras nas trapeiras e as rosas-de-toucar fecham-se, púdicamente, por varandas e sacadas.
Esta é a hora dos “Fala-Sós”… Lá estão eles no Monte e em Santa Luzia, em S. Pedro de Alcântara e no Alto de Santa Catarina… Olhos fixos, magníficos e famintos, lábios que se sentem mexer numa irreprímivel confissão de amor, ensimesmados e indiferentes a tudo que não seja o deslumbramento de alma que a presença, viva e intimamente sentida, da sua amada Lisboa, lhes faz viver, num frémito de emoção e de puro prazer.
Todos os “Fala-sós” são poetas – mesmo os que não sabem fazer versos, mesmo aqueles cujos poemas vivem e vibram de dentro para dentro. Estes usam as vozes do silêncio, recolhidas e crentes, mas não menos apaixonadas do que as dos outros, - dos que cantam, dos que exprimem de dentro para fora.Uma das mais puras vozes cantantes dos “Fala-sós” da cidade é a de Carlos Conde, - poeta pela graça de Deus, trovador por amor da Lisboa que vive, em sortilégio da graça, nas suas rimas ricas de sabor e verdade.
O poeta percorre as ruas da cidade ribeirinha, sobe escadinhas, entra nos pátios, calcurreia as calçadas, enternece-se com os arcos e alpendres, deslumbra-se nos mirantes e miradouros…
Ali vai um cego a tocar guitarra; uma costureirinha romântica assoma à janela a trautear uma trova; uma varina atira ao ar a nota cantada dum pregão vibrante; um marujo passa, bamboleante e pimpão; uma rapariga, de lenço e avental, leva nos olhos a marca de um amor de perdição; um ardina saltitante e irreverente grita “à última hora”!...
Todo este mundo pitoresco e estranho, que é luz e noite, que é riso e lágrimas, que é manjerico e cardo, pertence ao poeta. Todo ele pulsa, vibra e vive nos versos de Carlos Conde.
Sobe o cantor a Santa Luzia, para nos dizer:
 
“Alfama faz-me lembrar
Na pureza muito sua,
Uma velhinha a fiar
Sentada à porta da rua!!...
 
E logo define o bairro como:
 
“Cancão em que o povo crê,
Cantiga que o povo reza…
- És um sonho de princesa
Alfama da velha Sé!...”
 
Do lactário sai uma rapariga que leva, aconchegado no xaile, quase escondido, o seu menino, aquele menino que o amor lhe pôs nos braços… E, Carlos Conde, comenta:
 
“Meu Deus! Meu Deus: - Vê lá bem
Que, por caminhos sem luz,
Anda um menino Jesus
Ao colo de cada mãe!...”
 
Tomando como sua a cruz de outra, a que passou chorosa, desiludida e descrente, o poeta afirma:
 
“Meus olhos que por alguém
Deram lágrimas sem fim,
Não choram por mais ninguém,
Basta que chorem por mim!...”
 
Passa à Mouraria para nos dizer:
 
“Venham ver a Mouraria
Pelas frestas do passado!...
----------------------------------------
Aqui, na Rua dos Canos,
Dançam faias e rameiras,
Entre dois velhos pianos
Dum café de camareiras!...”
 
Foi à Graça e contou-nos a história do namorico da Maria, a tal costureirinha romântica e cantadeira:
 
“Na Graça, quando ela passa,
Toda a gente lhe quer bem:
- Não há graça com mais graça
Do que a graça que ela tem!...
----------------------------------------------
Causa gosto ver aquele
Varandim com muitas flores,
À esquina de Sapadores
Muito perto do quartel.
Cá em baixo, um furriel
Com quem a Maria engraça
Diz-lhe um dito, uma chalaça,
Ela atira-lhe uma flor…”
 
É assim mesmo, não é? …
O poeta chega, agora, ao Castelo e diz-nos:
 
“Estamos no velho Castelo
Desta Lisboa garrida,
Que é o caixilho mais belo
De uma aguarela com vida!...”
 
Desce à Baixa e, lisboeta retinto, exclama:
 
“Ali vai a Tradição
Almoçar ao “Garrafinhas”,
Depois de estar nas “ginginhas”
Do Rossio e Santo Antão!...”
----------------------------------------
Vai-se ao “Cabeça de Touro”,
Ao “Friagem” e ao “Claudino”
E nunca se perde o tino…
Esta Baixa é um tesouro!...”
 
Desde o exterior castiço e pitoresco ao interior, - quantas vezes de revolta e drama - , todos os tipos populares, a própria voz do povo dos bairros típicos de Lisboa que cheira a alfazema e a cravo-de-papel, estão despidos e ficam bem assim na verdade da nudez dos versos de Carlos Conde. São como são. E Lisboa é como é.
Ai, Lisboa!... Que Carlos Conde, um dos teus apaixonados “Fala-sós”, te continue a sentir para dentro e a cantar para fora!...
Lisboa, tão linda és!...
 
Francisco Radamanto


publicado por pauloconde às 16:58
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Terça-feira, 1 de Dezembro de 2009
Parabéns Nuno. Um forte abraço!



publicado por pauloconde às 14:39
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Sábado, 24 de Outubro de 2009
...

Coimbra, 24 de Janeiro de 1951

“ Numa civilização onde há máquinas que jogam xadrez e homens que não sabem ler, a quem é que o poeta deve dizer os seus versos? “

 

 

Miguel Torga



publicado por pauloconde às 19:07
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Terça-feira, 6 de Outubro de 2009
Amália

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publicado por pauloconde às 15:03
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Segunda-feira, 31 de Agosto de 2009
O segredo do teu olhar

 

Não me olhes em segredo

Que o segredo, tem um fim,

Não me olhes, tenho medo

Que me segredes assim!

 

Saio à porta bem cedinho

Só para te ver passar,

Passas tu devagarinho

P’ra me dares o teu olhar!

 

Bem sei que nada dizemos

Sei bem que nada falamos,

Tudo aquilo que nós queremos

Está no olhar que trocamos!

 

É segredo, mas eu estou

Convencido que é assim,

Teu olhar já me contou

Que só tens olhos p’ra mim!

 

 

Paulo Conde



publicado por pauloconde às 12:10
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Segunda-feira, 3 de Agosto de 2009
Raúl Brandão

 

"O hábito é que me faz suportar a vida.

Às vezes acordo com este grito: - A morte! A morte! - e debalde arredo o estúpido aguilhão. Choro sobre mim mesmo como sobre um sepulcro vazio.

Oh! Como a vida pesa, como este único minuto com a morte pela eternidade pesa!

Como a vida esplêndida é aborrecida e inútil! Não se passa nada, não se passa nada. Todos os dias dizemos as mesmas palavras, cumprimentamos com o mesmo sorriso e fazemos as mesmas mesuras.

Petrificam-se os hábitos lentamente acumulados.

O tempo mói: mói a ambição e o fel e torna as figuras grotescas."

 



publicado por pauloconde às 18:08
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Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

 

Venha o sol que vier, é uma promessa

O que a manhã nos traz na sua alvura.

É outra vez a vida que começa

Aberta de inocência e de frescura.

 

Cipreste frio, a noite! Cor impura.

Triste alegria a tinta negra impressa.

Venha o sol que vier, tem mais altura

O sonho que se veja e que se meça.

 

Claro como a verdade - diz o povo.

Doce como um começo, o fruto novo

Onde reluz o laivo que o pintou.

 

Venha o sol que vier, é outro dia

No limpido pais da fantasia

Que a nossa escuridão iluminou.

 

 

 

Miguel Torga



publicado por pauloconde às 18:01
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Segunda-feira, 25 de Maio de 2009
A minha lágrima


Quero a lágrima furtiva

Que me levou de vencida

Quando a saudade raiou,

Saudade que mantém viva

A lembrança duma vida

Que o destino apagou!

 

Sou feliz, já não pertenço

Às agruras, ao tormento

Duma lágrima singela,

Esqueci-me que nela penso

E foi puro esquecimento

Quando hoje me lembrei dela!

 

E lembrei-me que a saudade

É de todos nós diferente

Não ri, não fala, não chora,

Três sentidos de ansiedade

Que o passado tem presente

Dia a dia, hora a hora!

 

Essa lágrima furtiva

Não se prendeu à saudade

Quando dela me lembrei,

A saudade é mais esquiva

E traiu a mocidade

Qu’inda ontem recordei!

 

 

Paulo Conde



publicado por pauloconde às 17:48
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Sábado, 25 de Abril de 2009
Escada sem corrimão

 

É uma escada em caracol

E que não tem corrimão

Vai a caminho do Sol

Mas nunca passa do chão.


Os degraus, quanto mais altos,

Mais estragados estão

Nem sustos nem sobressaltos

servem sequer de lição.


Quem tem medo não a sobe

Quem tem sonhos também não.

Há quem chegue a deitar fora

O lastro do coração.


Sobe-se numa corrida.

Corre-se perigos em vão.

Adivinhaste: é a vida

A escada sem corrimão.



David Mourão Ferreira





publicado por pauloconde às 12:56
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Terça-feira, 24 de Março de 2009
Ser palhaço!

Há gente que pelos modos

Quase toma por ofensa

Ser palhaço em qualquer parte,

Palhaços somos nós todos

Só existe a diferença

Na habilidade ou na arte!

 

No circo enorme da vida

Há quem ria de contente

Quando pratica acções más,

E até ande convencida

Que não vive unicamente

Das palhaçadas que faz!

 

Tudo trabalha em parelhas

Numa anedota pegada

Sempre de origem moderna,

As normas é que são velhas

Se o “faz tudo”, não faz nada

O rico não se governa!

 

A graça, a caricatura

Abrem rugas onde há traços

E surpresa onde há rotina,

Os que vivem da pintura

São sempre os mesmos palhaços

Que vivem da pantomina!

 

Mas há outros que no fundo

Dão no seu ar de chalaça

Razão ao velho ditado,

Que grita, que diz ao mundo,

Vale mais cair em graça

Do que tornar-se engraçado!

 

Carlos Conde



publicado por pauloconde às 15:00
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Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009
Lisboa á noite

 

Lisboa adormeceu, já se acenderam

Mil velas nos altares das colinas.

Guitarras, pouco a pouco, emudeceram,

Cerraram-se as janelas pequeninas.


Lisboa dorme um sono repousado,

Nos braços voluptuosos do seu Tejo,

Cobriu-a a colcha azul do céu estrelado

E a brisa veio, a medo, dar-lhe um beijo.


[Refrão=]


Lisboa andou de lado em lado,

Foi ver uma toirada, depois bailou, bebeu.

Lisboa ouviu cantar o fado,

Rompia a madrugada, quando ela adormeceu.


Lisboa não parou a noite inteira,

Boémia, estouvanada, mas bairrista,

Foi à sardinha assada, lá na feira,

E à segunda sessão duma Revista.


Dali p'ró Bairro Alto enfim galgou,

No céu, a lua cheia refulgia,

Ouviu cantar a Amália e então sonhou

Qu'era a saudade, aquela voz que ouvia.

 

 

Fernando Santos e Carlos Dias



publicado por pauloconde às 18:24
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Domingo, 11 de Janeiro de 2009
Alma perdida

 

 

 

 

 

Toda esta noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma da gente,
Tu és, talvez, alguém que se finou!
 
Tu és, talvez, um sonho que passou,
Que se fundiu na dor, suavemente...
Talvez sejas a alma, a alma doente
Dalguém que quis amar e nunca amou!
 
Toda a noite choraste... e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!
 
Contaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh’ alma
Que chorasse perdida em tua voz!...
 
 
 
Florbela Espanca


publicado por pauloconde às 18:29
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Sexta-feira, 10 de Outubro de 2008
Frederico de Brito


Canoa do Tejo

Canoa de vela erguida
Que vens do Cais da Ribeira,
Gaivota que anda perdida
Sem encontrar companheira,
O Vento sopra nas Fragas,
O Sol parece um morango
E o Tejo baila com as vagas
A ensaiar um fandango

Estribilho:
Canoa, conheces bem,
Quando há Norte pela proa,
Quantas docas tem Lisboa
E as muralhas que ela tem!
Canoa, por onde vais,
Se algum barco te abalroa,
Nunca mais voltas ao Cais!
Nunca, nunca, nunca mais!!

Canoa de vela panda
Que vens da Boca da Barra
E trazes na aragem branda
Gemidos duma guitarra,
Teu arrais prendeu a vela;
E se adormeceu, deixá-lo!
Agora muita cautelaa
Não vá o Mar acordá-lo!

           


publicado por pauloconde às 21:08
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Domingo, 28 de Setembro de 2008
Lisboa no Guiness

 



publicado por pauloconde às 13:50
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Sexta-feira, 19 de Setembro de 2008
A saudade e o desgosto

 

 
 
A saudade e o desgosto
Foram criando raízes
Tão fundas, que as cicatrizes
São as rugas do meu rosto!
 
Carlos Conde
 
 
Quando após o sofrimento
Sem um ai, nem um lamento
Vão ruindo este meu rosto,
Sem que a vida me lamente
Só moram no meu presente
A saudade e o desgosto!
 
Ávidas ao meu destino
São lei no altar divino
Como sagradas matrizes,
Sem que o tempo as enganasse
No rubor da minha face
Foram criando raízes!
 
O desgosto vai distante
E a saudade triunfante
Hora a hora sobe um posto,
Subindo crava raízes
Tão fundas, que as cicatrizes
São as rugas do meu rosto!
 
 
Paulo Conde


publicado por pauloconde às 21:08
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Quinta-feira, 14 de Agosto de 2008
Prisioneiro

 

Se algum dia amar a vida
Como a vida me odiou,
É porque sarei a ferida
Que o tempo nunca sarou!
 
A sorte não me prendeu
E andei por aí sem Norte,
Preso ao jugo dum plebeu
No azar e na má sorte!
 
Presos levo ao meu destino
Desta alma que resiste,
Os meus sonhos de menino
E a alegria de ser triste!
 
P’ra fugir em pensamento
Às grades da fantasia,
Quero rir em sofrimento
E padecer de alegria!
 
Paulo Conde
 
 


publicado por pauloconde às 19:05
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Sábado, 28 de Junho de 2008
José Gomes Ferreira

 
“Deve ser horrível viver com a impressão de que se perdeu o comboio... De que se perderá sempre o comboio do dia seguinte... E de que só se chega a tempo ao comboio de ontem que já descarrilou.
 
 
José Gomes Ferreira


publicado por pauloconde às 23:05
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Domingo, 11 de Maio de 2008
Á luz da vela

 
Na penumbra matizada
Por laivos de incandescência
Que morrem no castiçal,
O tanger duma balada
Vai marcando a cadência
Da cantiga nacional!
 
Cacho d’ouro é cave antiga
Muito embora no trajar
Não deixe de ser moderna,
Mas há sempre uma cantiga
Que teima em fazer lembrar
Os despiques na taberna!
 
Sob as ordens dum timão
Canteiros e lamparinas
Partilham do mesmo fado,
Essa dolente canção
Que deu brado nas esquinas
E vielas do passado!
 
Alta noite, madrugada,
As almas em conivência
De comunhão ancestral,
Na penumbra matizada
Por laivos de incandescência
Que morrem no castiçal!
 
Paulo Conde


publicado por pauloconde às 22:43
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Sábado, 19 de Abril de 2008
Victor Conde

Passeio da Vida
 
Quando vagueava p’lo passeio da vida
Estreito,
Curto,
Dum empedrado derrapante,
Parei de repente!
Contrariando a vontade das velozes rodas do envelhecimento.
E…
Nesse momento,
Fui capaz de dispor de mim,
Da minha alma,
Da minha vontade,
De olhar em volta!
 
E numa alegria de Primavera,
Pude ver todo o encanto,
Toda a beleza,
Duma existência quantas vezes desesperada!
 
Parei no teu olhar,
Nasci de novo na tua boca,
Adormeci no teu corpo,
Dei minha alma ao teu destino…
E acordei.
 
Acordei na verdade dum passeio imenso,
Num vaguear resplandecente,
Acelerando os rodados da vida,
Numa alegre angústia de viver!
 
Victor  Conde
 


publicado por pauloconde às 19:21
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